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"O predomínio
nesta região da grande propriedade na posse de poucos proprietários reproduz
e prolonga além-Tejo o modelo latifundista alentejano. Mas ele revela,
contudo, algumas singularidades próprias.
Uma das marcas
mais visíveis desse sistema na paisagem, o monte alentejano, reveste-se, nas
Campanhas da Idanha, de uma forma peculiar. De facto, aqui, o arraial, que
terminologicamente lhe corresponde, é uma unidade fechada, com uma estrutura
arquitectónica que satisfazia os requisitos funcionais normais das pessoas e
animais e lhes dava ainda uma certa segurança contra riscos de incursões
hostis da vizinhança espanhola, efabulados e presentes na memória dessas
gentes e manifestamente expresso nas grades das janelas, nomeadamente das
aldeias raianas de Segura e Salvaterra do Extremo.
O arraial beirão
é, na forma mais acabada, um exemplo notável de síntese arquitectónica de
vários desses elementos, com destaque para aqueles que respeitam ao gado,
que não só representava um valor de suma importância económica, como ainda
se afirmava de modo decisivo no plano da exploração agrária como força de
tracção.
Quando isolados
na paisagem, a sua arquitectura, não raro de invulgar qualidade, é
notoriamente impressiva. De planta quadrangular, com paredes de pedra à
vista e um enorme terreiro no centro, têm geralmente numa das alas as
instalações de habitação de uma família e um enorme palheiro; os cabanais,
onde se acolhiam dezenas de juntas de gado bovino, utilizados nos serviços
de mobilização das terras e nos transportes, ocupam as alas laterais,
interiormente abertas, com pilares de pedra para sustentação da armação do
telhado e manjedoura corrida de lés a lés, de cantaria; o último lado é
fechado por uma parede muito alta, com um único portão a meio, que dá ao
conjunto uma sugestão de fortaleza.
Com certa
frequência, estes arraiais vêem-se na periferia das aldeias, conferindo ao
plano construído destas uma expressão particular. Neste caso, a estrutura
torna-se mais complexa pela integração de outras funções e respectivos
equipamentos, com destaque para o lagar de azeite.
É essa a
situação da unidade agrícola de Proença-a-Velha, adquirida pela Câmara
Municipal de Idanha-a-Nova, em obediência a um amplo projecto de valorização
e afirmação do património regional raiano.
Este arraial,
situado dentro da aldeia, incorpora dois lagares de azeite, um arcaico e
outro mecanizado, um cabanal, amplos palheiros, silo de forragens, pocilgas
de porcos e outros anexos, dispostos em duas alas, com amplo terreiro de
permeio e dois portões de acesso orientados para a mesma rua e pouco
distanciados um do outro.
Cabanal e
lagares ficam a um dos lados; palheiro, pocilgas e silo do outro (Des 42).
O cabanal é uma
ampla divisão de 10,5m de largura e 18m de comprimento, de piso térreo,
seccionado por muros baixos de pedra com cápea do perpianho em 10
compartimentos regulares, que abrem para um corredor central,
dispostos em perfeita simetria.
Um balcão
corrido, de pedra, junto às paredes laterais, servia de manjedoura.
O velho lagar de
azeite, que imediatamente se lhe segue, é também uma divisão ampla, de
planta trapezoidal, de 11m de largura e 20 a 17,5m de comprimento, com duas
poderosas colunas de perpianho a meio para suporte da armação do telhado.
Junto à parede
do fundo situa-se a plataforma ou tendal, a toda a largura, com 4,5m de
profundidade, que incorpora dois alguergues, dois grupos de três cubas de
decantação e a fornalha.
As varas das
prensas dispõem-se, paralelamente, no sentido do comprimento da divisão, a
partir da parede traseira. Como no caso geral, os agulhadores que suportam a
agulha são dois possantes blocos de pedra, constitutivos da própria parede,
que avança, no interior, em paralelo, deixando entre si o espaço equivalente
à espessura da trave, encimados por um lintel que descarrega sobre eles o
peso da massa da parede que nele apoia. A ponta da trave entra nessa
cavidade e joga na agulha que a atravessa e firma nos agulhadouros.
Conforme a
tradição da região, as árvores utilizadas nestas prensas foram arrancadas e
mantiveram os raizeiros, os quais, devido à disposição das varas, ficam de
frente para a entrada, dando uma impressionante imagem de um tempo diferente
e de uma forma de relacionamento especial do homem com os meios naturais ao
seu alcance (Des. 44). Medem 8,5m de comprimento total e 0,60m de
secção; o raizeiro mede cerca de 1,20x1,25x0,90m. Junto a este, a trave tem
um vazado de secção rectangular, transversal, onde entra a concha,
pranchão com 1,20m de comprimento e 0,40x0,20m de secção, com um buraco
roscado no centro que serve de porca ao fuso; e outro, de secção circular,
vertical, que dá passagem livre ao fuso. Este é uma peça de madeira muito
rija, de 2,90m de comprimento e 0,20m de secção, roscado em dois
terços do seu comprimento e de secção quadrada no restante, com fuso
transversal para o vareiro, através do qual se põe em movimento circular.
Compete-lhe um peso de pedra, tronco-cónico, de 0,75m de diâmetro maior e
0,65m menor, com 0,80m de altura, equivalente a cerca de 850 quilos.
A ligação do
peso ao fuso é conseguida através de um veio de aço com sapata, aplicado a
uma peça de madeira que entra num rasgo chanfrado aberto na face superior do
peso e penetra a parte inferior do fuso e é fixado por cavilha transversal.
O engenho desta ligação permite a rotação do fuso, mantendo-se o peso
imobilizado. Para assegurar o prumo das varas nos movimentos verticais
provocados pela acção do fuso, estas são ladeadas pelas virgens, simples
vigas lançadas da parte frontal da plataforma ao travejamento da cobertura.
A cada uma
destas duas prensas corresponde um alguergue que , neste caso, é uma base
circular e plana, feita de argamassa de cimento e areia, um, sendo o outro
talhado num bloco de pedra, com um sulco na periferia que conduz o líquido
resultante da prensagem para a tarefa mestra, situada no seu alinhamento.
A câmaras de
decantação de cada prensa são três potes de barro, de forma geral ovóide,
com capacidade de 100 litros, metidos no massame da plataforma, junto à
parede anterior, com as bocas ligeiramente abaixo do nível daquela,
colocadas em linha, lado a lado. O pote do meio recebe o azeite de mistura
com as águas de vegetação e a água das caldas, e é nele que se faz a
separação dos líquidos. O azeite, mais leve, mantém-se à superfície da água
e, quando atinge o bordo do pote, corre por uma caleira de telha de canudo
para um dos potes laterais, à vez.
A água é
sangrada por um orifício aberto no fundo do pote onde se faz a decantação e
sai por um canal subterrâneo para um pequeno tanque cavado no solo, o
inferno, onde se recolhe algum azeite.
A um dos lados
vêem-se quatro tulhas de forma quadrangular com paredes de pedra. A água
para abastecimento da caldeira era elevada de um poço, situado sob a
plataforma, por meio de bomba manual.
O pio onde tem
lugar o esmagamento da azeitona situa-se no topo do cabanal, com portas de
comunicação para este e para a plataforma do lagar. É feito de blocos de
pedra, bem afeiçoados, de corpo cilindriforme e paredes interiores a
afunilar, com base inteiramente de pedra. Mede de diâmetro exterior e
interior, na boca, 2,75 e 2,60m respectivamente. A base de circulação
das galgas mede 2,06m de diâmetro e tem, no centro, um bloco cilindriforme
de 60cm de diâmetro, no qual se fixa o eixo da aranha das três galgas. Estas
medem 1,12m de diâmetro e 22cm de lado e dispõem-se verticalmente segundo os
três lados de um triângulo, de modo a descrever três círculos diferentes:
uma move-se junto à aresta inferior da parede, outra ao bloco central, e a
terceira no espaço deixado livre por estas, a meio.
A
aranha é formada por uma estrutura em madeira que joga naquele eixo do bloco
e tem nas extremidades um ferro que serve de eixo à galgas. É nela que se
fixa a ponta do cambão, disposto radialmente, reforçado por um varão de
ferro ao qual se atrelam os animais que accionam as galgas.
O lagar
mecanizado, de planta em L, dá continuidade e completa o corpo edificado
desta ala. No seguimento da parede que comunica com o lagar de varas,
encontram-se duas amplas divisões: uma, rectangular, com 11x5m, onde estão
instaladas oito cubas para recolha da azeitona, com porta elevada a abrir
para o pátio; e outra, interior, de comunicação à divisão contígua. Esta
mede 11,5x9m e mostra, a um dos cantos, dois tanques com fundo e lados de
grandes peças de granito trabalhado com cerca de 4x3m cada, onde se
entulhava a azeitona em água; ao lado destes dispõem-se os enormes potes de
folheta para a armazenagem do azeite; no plano oposto, situam-se dois
tanques de paredes baixas para lavagem da azeitona. Esta divisão abre para o
pátio através de um portão largo e comunica com o bloco onde se encontra a
aparelhagem do lagar. Este é de planta rectangular, de 18,5x5m. No primeiro
compartimento encontra-se um motor a diesel, de 16cv, de marca Listard, de
fabrico inglês, e um lavador-transportador de azeitonas. O piso do segundo
compartimento é de dois níveis, sendo o intermédio o mais elevado. É nele
que se encontra instalado o pio metálico, da fábrica Duarte Ferreira, de
corpo tronco-cónico de base invertida, assente em 4 pés, com 2,10m de
diâmetro na boca e base de pedra de 1,30m de diâmetro. As duas galgas, de
1,25m de diâmetro e 29cm de rasto, dispõem-se paralelamente, centradas e com
o eixo ligado a um mecanismo que permite regular a sua altura. A massa da
azeitona sai por bocas abertas na aba do pio, ora para uma grande gamela,
ora, como é agora o caso, para uma misturadora. Duas linhas de carril
longitudinais e outra transversal permitem aproximar da misturadora o prato
com o fuso para a operação de encapachamento da massa e transportá-lo até ao
lugar da prensa.
Este lagar
dispõe de duas prensas hidráulicas, da Fábrica Duarte Ferreira & Filhos, e4
respectiva bomba de pressão.
No Piso mais
baixo encontram-se as tarefas de decantação, em folheta, cilindriformes, com
torneiras para escoamento da água-ruça. Recentemente foi instalada uma
centrifugadora marca De Laval, fabricada nas instalações do Rossio de
Abrantes.
A água,
canalizada, é aquecida a lenha num grande cilindro.
O piso elevado
tem uma porta alta a abrir para o pátio, e o mais baixo, outra, através da
qual se transportam os capachos com a massa prensada para uma máquina
desencapachadora fabricada nas Fundições do Rossio de Abrantes e instalada
num telheiro em frente.
Na ala oposta,
situa-se o palheiro, ampla divisão rectangular de 15x9,5m, com três colunas
de granito para sustentação da cobertura; um grupo de3 três pocilgas e, no
outro extremo, frente ao cabanal, um segundo palheiro ou silo para
forragens, de 13x9m, com o nível do chão profundamente rebaixado.
Em vista a uma
mais completa representação da cadeia tecnológica, transferiram-se os
componentes mecânicos de um lagar situado em Donas, Fundão, que havia
cessado a sua actividade. Trata-se de um lagar com prensa de parafuso
central de ferro e piuo de fabrico insdustrial de tracção hidráulica. Além
de documentar os sistemas de tracção hidráulica e de prensa de parafuso, ele
é ainda, como vimos atrás, um testemunho revelador dessa inventiva empírica
que associa à pressão obtida pelo fuso o peso de dois poderosos blocos de
pedra.
Estes elementos
são apresentados na sua estreme expressão funcional numa ampla vitrine
exterior." (*)
A divisão que
servia de palheiro foi transformada numa galeria de exposição, na qual se
faz a síntese da problemática do azeite em Portugal.
(*) In: Benjamim Pereira - "Tecnologia
tradicional do azeite em Portugal ". Edição Câmara Municipal de
Idanha-a-Nova 2005 |